Procuramos
ser objetos da memória, e assuntos da fama: o nosso fim é querermos,
que se fale em nós, vindo a ser ambiciosos das palavras dos outros, e
idólatras das narrações da história. Este delírio nos entrega a
aplicação das letras, e nos inspira a inclinação das armas, como dois
poios, que guiam para uma fingida, e sonhada imortalidade. Alguns fogem
da sociedade; ou por cansados do tumulto, ou porque conhecem os enganos
do aplauso; porém ainda esses lá se formam uma crença vaidosa, de que os
homens falam neles, e discorrem sobre as causas dos seus retiros.
Quantas vezes nos parece, que o bosque, que nos serve de muda companhia,
se magoa dos nossos infortúnios, e que o vale recebe o sentimento das
nossas queixas, quando em ecos entrega aos ventos, partidos os nossos
ais! Parece-nos, que a aurora nasce rindo dos nossos males; que as
fontes murmuram dos nossos desassossegos; que as flores crescem para
símbolo das nossas delícias; e que as aves festejam os nossos triunfos.
Os homens, a quem a concorrência de acasos felizes faz chamar grandes,
presumem, que ainda que deles não depende a existência do mundo, contudo
depende deles a ordem, e a economia das coisas: todos falam nas suas
ações, e nisto consiste a sua maior, e mais estimada vaidade. Deixamos
livremente o comércio dos homens, mas não renunciamos o viver na
admiração, e notícia deles; consentimos em apartar-nos de sorte, que
nunca mais sejamos vistos, mas não consentimos em não ser lembrados:
finalmente queremos, que se fale em nós: as mesmas sepulturas, que são
uns pequenos teatros das mais lastimosas tragedias, espantam menos pelo
horror das sombras, que pelo silêncio.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Não vivemos contentes, se a nossa vaidade não vive satisfeita
Não
vivemos contentes, se a nossa vaidade não vive satisfeita; ainda temos o
bem, que com pouco se alimenta a vaidade. Um riso agradável, que
achamos nas pessoas eminentes, e que por mais, que seja equívoco sempre a
vaidade o interpreta a seu favor; um obséquio, que tem por princípio a
dependência, e em que o interesse se esconde sutilmente; uma submissão,
que nos faz crer que os homens têm obrigação de respeitar-nos; uma
lisonja dita com tal arte, que fica sendo impossível, conhecermos-lhe
veneno; qualquer coisa destas, e ainda menos basta, para que a nossa
vaidade se reveja, e se satisfaça; de sorte que não vivemos alegres, se
não vivemos vaidosos.
O que chamamos inveja, não é senão vaidade
O
que chamamos inveja, não é senão vaidade. Continuamente acusamos a
injustiça da fortuna, e a consideramos ainda mais cega do que o amor, na
repartição das felicidades. Desejamos o que os outros possuem, porque
nos parece, que tudo o que os outros têm, nós o merecíamos melhor; por
isso olhamos com desgosto para as coisas alheias, por nos parecer, que
deviam ser nossas: que é isto senão vaidade? Não podemos ver luzimento
em outrem, porque imaginamos, que só em nós é próprio: cuidamos, que a
grandeza só em nós fica sendo natural, e nos mais violenta: o esplendor
alheio passa no nosso conceito por desordem do acaso, e por miséria do
tempo. Quem diria aos homens, que no mundo há outra coisa mais do que
fortuna, e que nas honras há predestinação?
Há um gênero de vaidade...
Há
um gênero de vaidade, que toda consiste em procurarmos que se fale em
nós; por isso a mesma vaidade inventou a frase de dizer-se, que vive no
escuro aquele de quem se não fala; dando a entender, que as empresas,
por meio das quais se fala nos homens, são a claridade que os mostra, e
os distingue: com efeito por mais que vivamos juntos, e nos vejamos
sempre, é por um modo como vago, e passageiro: as coisas nem por estarem
muito perto se vêem melhor, e os heróis o que os faz mais visíveis, é a
distância, e desproporção dos outros homens em que os põem as suas
ações: não só os homens, mas ainda os sucessos, quanto mais longe vão
ficando, mais crescem, e nos vão parecendo maiores, até que os vimos
perder da vista, e muitas vezes da memória; porque no tempo também há um
ponto de perspectiva, donde como em espelho vão crescendo todos os
objetos, e em chegando a um certo termo desaparecem. As empresas, que
hoje vemos, talvez não são inferiores às que a tradição refere do tempo
do heroísmo; porém têm de menos o estarem próximas a nós, e as outras
têm de mais, o valor que recebem de uma antiguidade venerável: aquelas
admiramos porque não temos inveja, nem vaidade, que nos preocupe contra
os que passaram há muitos séculos; contra os que existem sim, e destes,
se sabemos as ações, também sabemos as circunstâncias delas; por isso as
desprezamos, porque é rara a empresa heróica, em que não entre algum
fim indigno, e vil: a mais ilustre ação fica infame pelo motivo.
Nas paixões é natural o entreter-nos cada uma com a esperança...
Nas
paixões é natural o entreter-nos cada uma com a esperança, que lhe é
própria; e com feito nada é mais agradável do que uma esperança
lisonjeira. O desejo se deleita em meditar no bem, que espera; e a
natureza, a quem as paixões têm sempre em ação, não cessa de guiar o
pensamento para aquela mesma parte, para donde a nossa inclinação
propende; por isso o amor contìnuamente nos promete, que há de acabar a
tirania, e que cedo há de vir a feliz correspondência; o ódio nos
segura, que vem chegando o dia da vigança; e finalmente a vaidade só nos
oferece idéias de respeito, e de grandeza; e desta sorte não vivemos,
esperamos a vida.
Algumas dúvidas...
Algumas
dúvidas, há que respeitamos; mas nem a essas perdoa a vaidade, pois
nunca quer que fiquem indecisas: mas infelizmente, porque nelas sempre a
solução da dúvida vem a consistir em outra dúvida maior. Quase tudo
transcende à nossa compreensão, mas nada transcende à nossa vaidade.
Naturalmente nos é odiosa a irresolução, e antes nos inclinamos a errar,
do que a ficar irresolutos: o confessar ignorância é ato a que se opõe a
vaidade; sendo que rara é a coisa, que se nos mostra, sem um certo véu
que a esconde de sorte que não vemos, nem buscamos os objetos, mas a
sombra deles.
As aparências de que o mundo se compõe
Vemos
confusamente as aparências de que o mundo se compõe: os nossos
discursos raramente encontram com a verdade, com a dúvida sempre; de
sorte que a ciência humana toda consiste em dúvida. Ainda dos primeiros
princípios visíveis, e materiais, só conhecemos a existência, a natureza
não; porque a contextura do universo é em si unida, e regular em forma,
que na ordem das suas partes não se podem conhecer umas, sem se
conhecerem todas; por isso todas se ignoram, porque nenhuma se conhece:
só a vaidade costuma decidir sem embaraço, porque não chega a
imaginar-se capaz de erro: os homens mais obstinados são os mais
vaidosos, e sempre a porfia vem à proporção da vaidade.
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