quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Procuramos ser objetos da memória, e assuntos da fama...

Procuramos ser objetos da memória, e assuntos da fama: o nosso fim é querermos, que se fale em nós, vindo a ser ambiciosos das palavras dos outros, e idólatras das narrações da história. Este delírio nos entrega a aplicação das letras, e nos inspira a inclinação das armas, como dois poios, que guiam para uma fingida, e sonhada imortalidade. Alguns fogem da sociedade; ou por cansados do tumulto, ou porque conhecem os enganos do aplauso; porém ainda esses lá se formam uma crença vaidosa, de que os homens falam neles, e discorrem sobre as causas dos seus retiros. Quantas vezes nos parece, que o bosque, que nos serve de muda companhia, se magoa dos nossos infortúnios, e que o vale recebe o sentimento das nossas queixas, quando em ecos entrega aos ventos, partidos os nossos ais! Parece-nos, que a aurora nasce rindo dos nossos males; que as fontes murmuram dos nossos desassossegos; que as flores crescem para símbolo das nossas delícias; e que as aves festejam os nossos triunfos. Os homens, a quem a concorrência de acasos felizes faz chamar grandes, presumem, que ainda que deles não depende a existência do mundo, contudo depende deles a ordem, e a economia das coisas: todos falam nas suas ações, e nisto consiste a sua maior, e mais estimada vaidade. Deixamos livremente o comércio dos homens, mas não renunciamos o viver na admiração, e notícia deles; consentimos em apartar-nos de sorte, que nunca mais sejamos vistos, mas não consentimos em não ser lembrados: finalmente queremos, que se fale em nós: as mesmas sepulturas, que são uns pequenos teatros das mais lastimosas tragedias, espantam menos pelo horror das sombras, que pelo silêncio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário