Há
um gênero de vaidade, que toda consiste em procurarmos que se fale em
nós; por isso a mesma vaidade inventou a frase de dizer-se, que vive no
escuro aquele de quem se não fala; dando a entender, que as empresas,
por meio das quais se fala nos homens, são a claridade que os mostra, e
os distingue: com efeito por mais que vivamos juntos, e nos vejamos
sempre, é por um modo como vago, e passageiro: as coisas nem por estarem
muito perto se vêem melhor, e os heróis o que os faz mais visíveis, é a
distância, e desproporção dos outros homens em que os põem as suas
ações: não só os homens, mas ainda os sucessos, quanto mais longe vão
ficando, mais crescem, e nos vão parecendo maiores, até que os vimos
perder da vista, e muitas vezes da memória; porque no tempo também há um
ponto de perspectiva, donde como em espelho vão crescendo todos os
objetos, e em chegando a um certo termo desaparecem. As empresas, que
hoje vemos, talvez não são inferiores às que a tradição refere do tempo
do heroísmo; porém têm de menos o estarem próximas a nós, e as outras
têm de mais, o valor que recebem de uma antiguidade venerável: aquelas
admiramos porque não temos inveja, nem vaidade, que nos preocupe contra
os que passaram há muitos séculos; contra os que existem sim, e destes,
se sabemos as ações, também sabemos as circunstâncias delas; por isso as
desprezamos, porque é rara a empresa heróica, em que não entre algum
fim indigno, e vil: a mais ilustre ação fica infame pelo motivo.
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