Que
são os homens mais do que aparências de teatro? Tudo neles é
representação, que a vaidade guia: a fatal revolução do tempo, e o seu
curso rápido, que coisa nenhuma pára, nem suspende, tudo arrasta, e tudo
leva consigo ao profundo de uma eternidade. Neste abismo, donde entra, e
nada sai, se vão precipitar todos os sucessos, e com eles todos os
impérios. Os nossos antepassados já vieram, e já foram; e nós daqui a
pouco vamos ser também antepassados dos que hão de vir. As idades se
renovam, a figura do mundo sempre muda, os vivos, e os mortos
contìnuamente se sucedem, nada fica, tudo se usa, tudo acaba. Só Deus é
sempre o mesmo, os seus anos não têm fim, a torrente das idades, e dos
séculos corre diante dos seus olhos, e ele vê a vaidade dos mortais, que
ainda quando vão passando o insultam, e se servem desse mesmo instante,
em que passam para o ofenderem. Miseráveis homens, gênero infeliz, que
nesse momento, que lhes dura a vida, preparam a sua mesma reprovação; e
que tendo vaidade, que lhes faz parecer, que tudo meditam, que tudo
sabem, e que tudo prevêem, só a não têm para anteverem as vinganças de
um Deus irado, e que com o seu mesmo sofrimento, e silêncio, clama,
ameaça, julga, condena!
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