A
vaidade nos ensina, que as ações heróicas se fazem imortais por meio
das narrações da história; porém mal pode caber na lembrança dos homens
todos os grandes sucessos, de que se compõe a variedade do mundo: ainda o
mesmo pensamento tem limite, por mais que nos pareça imensa a sua
esfera. Não há história, que verdadeiramente seja universal: quantos
Aquiles terão havido, cujas notícias se acabaram, só porque não tiveram
Homeros, que as fizessem durar certo tempo, e isto por meio do encanto
de um poema ilustre? Quantos Enéias sem Virgílios? Quantos Alexandres
sem Quintos Cúrcios? Na infância do mundo começaram logo a haver
combates, por isso as vitórias sempre foram de todas as idades; porém
esses mesmos combates se desfaziam uns a outros; porque a fortuna do
vencer sempre foi vária, e inconstante. As notícias das vitórias também
se vinham a extinguir umas pelas outras. Se quisermos remontar ao tempo
que passou, a poucos passos havemos de encontrar a fábula, coberta de um
véu escuro, e impenetrável: tudo quanto aquele tempo encerra nos é
desconhecido totalmente. Os primeiros homens, que à fôrça de fogo, e
sangue se fizeram árbitros da terra, nos mesmos fundamentos das suas
conquistas deixaram sepultadas as suas ações: o valor com que puderam
perpetuar nos seus descendentes o poder, e a majestade, não lhes pode
perpetuar o nome: das maiores monarquias ainda se ignora quem foram seus
primeiros fundadores.
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