Acabam
os heróis, e também acabam as memórias das suas ações; aniquilam-se os
bronzes, em que se gravam os combates; corrompem-se os mármores, em que
se esculpem os triunfos: e apesar dos milagres da estampa, também se
desvanecem as cadências da prosa, em que se descrevem as emprêsas, e se
dissipam as harmonias do verso, em que se depositam as vitórias: tudo
cede à voracidade cruel do tempo. Acabam-se as tradições muito antes que
acabe o mundo; porque a ordem dos sucessos não se inclui na fábrica do
Universo; é coisa exterior, e indiferente. Os monumentos, que fazem da
história a melhor parte, e a mais visível, não só se estragam, mas
desaparecem, e de tal sorte, que nem vestígios deixam por onde ao menos
lhes recordemos as ruínas. Não têm mais duração as cinzas dos heróis ;
porque as mesmas urnas, que as escondem, se desfazem, e os mesmos
epitáfios, por mais que sejam profundos os caracteres, insensìvelmente
vão fugindo aos nossos olhos, até que se apagam totalmente. Ainda as
coisas inanimadas, parece que têm um tempo certo de vida: as pedras, de
que se formam os padrões, vão perdendo a união das suas partes, em que
consiste a sua dureza, até que vêm a reduzir-se ao princípio comum de
tudo; terra, e pó.
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