Há
vários termos no progresso da nossa vaidade: esta no primeiro estado da
inocência vive em nós como oculta, e escondida: o tempo faz que ela se
mova, e se dilate: semelhante às aves, que nascem todas sem penas, ainda
que todas em si trazem a matéria delas. A nossa alma está disposta para
receber, e concentrar em si as impressões da vaidade; esta, que
insensìvelmente se forma, do que vemos, do que ouvimos, e ainda do que
imaginamos, quando cresce em nós, é imperceptível, da mesma sorte, que
cresce imperceptivelmente a luz, e que apenas se distingue a elevação
das águas. Nascemos sem vaidade; porque nascemos sem uso de razão, nem
de discurso: quem dissera, que aquilo, o que nos devia defender do mal, é
o mesmo que nos conduz a ele, e nos precipita! Todas as paixões dão
conosco passos iguais no caminho da vida: logo que vimos ao mundo,
começamos a ter ódio, ou amor, tristeza, ou alegria: só a vaidade vem
depois, mas dura sempre, e quando se manifesta, é também quando em nós
começa a aparecer o entendimento; por isso a emenda da vaidade é tão
difícil, porque é erro em que o entendimento tem parte de algum modo.
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