O
homem de uma medíocre vaidade é incapaz de premeditar empresas, nem de
formar projetos: tudo nele é sem calor: a sua mesma vida é uma espécie
de letargo: tudo o que procura é com passos vagarosos, cobardes, e
descuidados; porque a vaidade é em nós como um espírito dobrado, que nos
anima; por isso o homem, em que a vaidade não domina é tímido, e sempre
cercado de dúvida, e de receio: a vaidade logo traz consigo o
desembaraço, a confiança, o arrojo, e certeza. Presume muito de si quem
tem vaidade, por isso é confiado: não presume de si nada quem não tem
vaidade, por isso é tímido. A vaidade nos faz parecer, que merecemos
tudo, por isso empreendemos, e conseguimos às vezes: a falta de vaidade
nos faz parecer, que não merecemos nada, por isso nem buscamos, nem
pedimos. Êste extremo é raro, o outro é mui comum; daquele se compõe o
mundo, dêste o céu. A diferença, e desigualdade dos homens é uma
das partes, em que se estabelece a sociedade, por isso esta se funda em
princípios de vaidade; porque só a vaidade sabe corporificar idéias, e
fazer diferente, e desigual o que é composto por um mesmo modo, e
organizado de uma mesma forma. Os homens mais vaidosos são os mais
próprios para a sociedade: aqueles que por temperamento, por razão, ou
por virtude se fazem menos sensíveis aos impulsos da vaidade, são os que
pela sua parte contribuem menos na comunicação dos homens: ocupados em
uma vida mole, isenta, e sem ação, só buscam no descanso a fortuna
sólida, e desprezam as imagens de que se compõe a vaidade da vida civil.
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