domingo, 24 de fevereiro de 2013

O homem de uma medíocre vaidade é um homem fraco, incapaz.

O homem de uma medíocre vaidade é incapaz de premeditar empresas, nem de formar projetos: tudo nele é sem calor: a sua mesma vida é uma espécie de letargo: tudo o que procura é com passos vagarosos, cobardes, e descuidados; porque a vaidade é em nós como um espírito dobrado, que nos anima; por isso o homem, em que a vaidade não domina é tímido, e sempre cercado de dúvida, e de receio: a vaidade logo traz consigo o desembaraço, a confiança, o arrojo, e certeza. Presume muito de si quem tem vaidade, por isso é confiado: não presume de si nada quem não tem vaidade, por isso é tímido. A vaidade nos faz parecer, que merecemos tudo, por isso empreendemos, e conseguimos às vezes: a falta de vaidade nos faz parecer, que não merecemos nada, por isso nem buscamos, nem pedimos. Êste extremo é raro, o outro é mui comum; daquele se compõe o mundo, dêste o céu. A diferença, e desigualdade dos homens é uma das partes, em que se estabelece a sociedade, por isso esta se funda em princípios de vaidade; porque só a vaidade sabe corporificar idéias, e fazer diferente, e desigual o que é composto por um mesmo modo, e organizado de uma mesma forma. Os homens mais vaidosos são os mais próprios para a sociedade: aqueles que por temperamento, por razão, ou por virtude se fazem menos sensíveis aos impulsos da vaidade, são os que pela sua parte contribuem menos na comunicação dos homens: ocupados em uma vida mole, isenta, e sem ação, só buscam no descanso a fortuna sólida, e desprezam as imagens de que se compõe a vaidade da vida civil.

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