Oh
quanto é especiosa a tranquilidade do deserto! Lá não há ódio, nem
soberba; não há crueldades nem inveja: estes monstros são feras
invisíveis que habitam entre nós, para serem ministros fatais das nossas
discórdias, e das nossas aflições; nascem da nossa sociedade, e se
sustentam da nossa mesma comunicação: por isso a virtude costuma fugir
ao tumulto, porque a nossa maldade não é pelo que toca a cada um de nós,
mas pelo que respeita aos outros: fomos perversos por comparação; e
reciprocamente uns servimos de objeto às iniquidades dos outros; a
vaidade sempre foi origem dos nossos males; mas primeiro que a vaidade,
foi o comércio comum das gentes; porque dele resulta a vaidade como
contágio contraído no trato, e conversação dos homens. O nosso
entendimento facilmente se inficciona, não só com as opiniões próprias,
mas também com as alheias; não só com as próprias vaidades, mas também
com as dos outros: não sei se seria mais útil ao homem o ser
incomunicável.
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