Se
a melancolia nos desterra para a solidão do ermo, não deixa de ir
conosco a vaidade; e então somos como a ave desgraçada, que por mais que
fuja do lugar em que recebeu o golpe, sempre leva no peito atravessada a
seta: nunca podemos fugir de nós: para donde quer que vamos imos com os
nossos mesmos desvarios, se bem que as vaidades do ermo são vaidades
inocentes. A natureza não tem lá por objeto mais do que a si mesma, e a
vaidade, que tem na complacência, com que se contempla, consiste em
refletir sobre os enganos do século, e sobre as verdades da solidão; e
se alguma vez chega a ser excessiva essa mesma complacência, não
importa; porque a vaidade de ser virtuoso também parece que é virtude; e
assim vimos a ter naquele caso um vício, que nos emenda, e um defeito,
que nos melhora.
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