Todos
fazem vaidade de ter malícias; nem há quem diga, que a não tem, antes é
defeito, que reconhecemos com gosto, e confessamos sem repugnância: a
razão é; porque a malícia consiste em penetração, por isso não nos
defendemos de um defeito, que indica o têrmos entendimento. A vaidade
faz, que não há coisa, que não sacrifiquemos ao desejo de parecer
entendidos, ainda que seja à custa de um vício, ou de uma culpa. Quando
nos queremos dar por uma bondade sem exemplo, dizemos, que não temos
malícia alguma: porém êsse pensamento não dura muito em nós; porque a
vaidade nos obriga a querermos antes parecer maus com entendimento, do
que bons sem ele: verdadeiramente a falta de malícia é falta de
entendimento; porque malícia pròpriamente é aquela inteligência, ou ato,
que prevê o mal, ou o medita; por isso é diferente o ter malícia, e o
ser malicioso: tem malícia quem descobre o mal para o evitar; é
malicioso quem o antevê para o exercer: a malícia é uma espécie de arte
natural, que se compõe de combinações, e consequências, e neste sentido a
malícia é uma virtude política. As mais das coisas têm muitos modos, em
que podem ser consideradas; por isso a mesma coisa pode ser pequena, e
grande; pode ser má, e também boa; pode ser injusta, e justa: a vaidade
porém sempre se apropria o modo, ou o sentido, em que a coisa em nós
fica sendo superior, e admirável.
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