domingo, 24 de fevereiro de 2013

Juízo: um entendimento sólido

Bem se pode dizer que o juízo é o mesmo que entendimento, porém é um entendimento sólido; por isso pode haver entendimento sem juízo, mas não juízo sem entendimento: ter muito entendimento às vezes prejudica, o ter muito juízo sempre é útil: o entendimento é a maior parte que discorre, porém pode discorrer mal: o juízo é a mesma parte que discorre, quando discorre bem: o entendimento pensa, o juízo também obra; por isso nas ações de um homem conhecemos o seu juízo, e no discurso lhe vemos o entendimento: o juízo duvida antes que resolva, o entendimento resolve primeiro que duvide; por isso este se engana pela facilidade, com que decide, e aquêle acerta pelo vagar, com que pondera. Ordinàariamente falamos no juízo, e não no entendimento de Deus, e deve ser pela impressão, que temos, de que o juízo é menos sujeito ao erro, que em Deus é impossível: com toda esta vantagem, que achamos no juízo, pouco nos desvanece o ter juízo, e muito nos lisonjeia o ter entendimento. Consideramos o juízo como coisa popular, ou somente como uma espécie de prudência, sendo aliás coisa muito rara; e olhamos para o entendimento como coisa mais altiva, e em que reside a qualidade da agudeza; e assim mais nos agrada o discorrermos sutilmente, do que o discorrermos com acerto, e ainda fazemos vaidade de voltar de tal sorte as coisas, que fiquem parecendo, o que claramente se sabe, que não são. O engano vestido de eloquência, e arte, atrai, e a verdade mal polida nunca persuade. Fazemos vaidade de errar com sutileza, e temos pejo de acertar rusticamente.

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