Trazem os homens entre si uma contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade é um instrumento, que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõem à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável a vaidade dos mais; por isso quem não tivesse vaidade, não lhe importaria nunca, que os outros a tivessem. Tôdas as paixões têm um tempo certo em que começam, e em que acabam: algumas são incompatíveis entre si, por isso para nascerem umas é preciso, que acabem outras. O ódio, e o amor nascem conosco, e muitas vêzes se encontram em um mesmo coração, e a respeito do mesmo objeto. A liberdade, a ambição, e a avareza, são ordinariamente incompatíveis; manifestam-se em certa idade, ou ao menos então adquirem maior fôrça. Não seise diga, que as paixões são umas espécies de viventes, que moram em nós, cuja vida, e existência, semelhantes à nossa, também têm um tempo certo, e limitado; e assim vivem, e acabam em nós, da mesma forma que nós vivemos no mundo, e acabamos nêle. Com tôdas as paixões se une a vaidade; a muitas serve de origem principal; nasce com tôdas elas, e é a última, que acaba: a mesma humildade, com ser uma virtude oposta, também costuma nascer de vaidade; e com efeito são menos os humildes por virtude, do que os humildes por vaidade; e ainda dos que são verdadeiramente humildes, é raro o que é insensível ao respeito, e ao desprêzo, e nisto se vê, que a vaidade exercita o seu poder, ainda donde parece, que o não tem.
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