quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O ódio

Para nada ser permanente em nós, até o ódio se extingue: cansamo-nos de aborrecer: a nossa inclinação tem intervalos, em que fica isenta da sua maldade natural: não esquece porém o ódio, que teve por princípio vaidade ofendida; assim como nunca o favor esquece quando se dirige, e tem por objeto a vaidade de quem recebe o benefício. A nossa vaidade é a que julga tudo: dá estimação ao favor, e regula os quilates à ofensa: faz muito do que é nada: dos acidentes faz substância: e sempre faz maior tudo o que diz respeito a si. Nos benefícios pagamo-nos menos da utilidade, que do obséquio: nas ofensas consideramos mais o atrevimento da injúria, que o prejuízo do mal; por isso se sente menos a dor das feridas, do que o arrojo do impulso ; e assim na vaidade nunca se forma cicatrizes firmes, e seguras; porque a lembrança do agravo a cada instante as faz abrir de novo, e verter sangue. O corpo não é sensível igualmente em todas as suas partes: umas sofrem, e resistem mais; qualquer desconserto em outras é mortal: assim também no corpo da vaidade há partes, em que penetra mais o sentimento: daqui vêm inimizades, que nem a morte reconcilia, ódios que duram tanto como a vida. Tudo o que nos tira, ou diminui a estimação, nos serve de tormento; porque o respeito é o ídolo comum da vaidade; aquilo que o ofende, não se perdoa facilmente, e fica sendo como um sacrilégio irremissível, e como um princípio de donde se originam tantas aversões hereditárias.

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