Para
nada ser permanente em nós, até o ódio se extingue: cansamo-nos de
aborrecer: a nossa inclinação tem intervalos, em que fica isenta da sua
maldade natural: não esquece porém o ódio, que teve por princípio
vaidade ofendida; assim como nunca o favor esquece quando se dirige, e
tem por objeto a vaidade de quem recebe o benefício. A nossa vaidade é a
que julga tudo: dá estimação ao favor, e regula os quilates à ofensa:
faz muito do que é nada: dos acidentes faz substância: e sempre faz
maior tudo o que diz respeito a si. Nos benefícios pagamo-nos menos da
utilidade, que do obséquio: nas ofensas consideramos mais o atrevimento
da injúria, que o prejuízo do mal; por isso se sente menos a dor das
feridas, do que o arrojo do impulso ; e assim na vaidade nunca se forma
cicatrizes firmes, e seguras; porque a lembrança do agravo a cada
instante as faz abrir de novo, e verter sangue. O corpo não é sensível
igualmente em todas as suas partes: umas sofrem, e resistem mais;
qualquer desconserto em outras é mortal: assim também no corpo da
vaidade há partes, em que penetra mais o sentimento: daqui vêm
inimizades, que nem a morte reconcilia, ódios que duram tanto como a
vida. Tudo o que nos tira, ou diminui a estimação, nos serve de
tormento; porque o respeito é o ídolo comum da vaidade; aquilo que o
ofende, não se perdoa facilmente, e fica sendo como um sacrilégio
irremissível, e como um princípio de donde se originam tantas aversões
hereditárias.
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